Rondônia, terreno fértil para a corrupção
A julgar pelo histórico recente, a operação que revelou ligação de políticos do estado com quadrilha de traficantes não deve resultar em cassações de mandato. Novos indícios complicam presidente da Assembleia
Gabriel Castro e Robson Bonin, de Brasília
Donadon é o caso mais recente de político de Rondônia pego em esquema de corrupção
(Pedro Ladeira/Folhapress)
Cinco deputados estaduais estão envolvidos. Entre eles, Herminio Coelho (PSD), presidente da Assembleia Legislativa. Agora, novas provas obtidas pelo site de VEJA mostram o envolvimento do parlamentar com a quadrilha. O desfecho do episódio, no entanto, já parece traçado: a impunidade.
A nomeação de servidores fantasmas no gabinete dos parlamentares era uma das estratégias da quadrilha para a lavagem do dinheiro obtido com a venda de drogas e o estelionato. Dezenove casos do tipo foram identificados. Mais do que favores a criminosos, o esquema era uma espécie de retribuição dos parlamentares que haviam sido ajudados com dinheiro da quadrilha, que acumulou um patrimônio de 33 milhões de reais.
Indícios até agora inéditos reforçam a ligação de Coelho – que permanece no comando da assembleia – com a quadrilha. Por exemplo: um cartão de crédito em nome de Andres Fernandes Dias, laranja do bando, tinha a fatura enviada mensalmente para o imóvel de Coelho. Fernandes também aparece como autor de uma doação de 30 000 reais à campanha do parlamentar, em 2010.
Fatura de cartão de crédito em nome de laranja
A proximidade era tanta que, na casa do criminoso, havia fichas com os dados necessários para a nomeação de funcionários no gabinete do deputado. E foram encontrados documentos das emendas parlamentares apresentadas por Hermínio Coelho.
As descobertas apenas comprovam as afirmações dos delegados Thiago Araújo Laiola e Francisco Borges Neto, que falam em "ingerência política" da quadrilha sobre o mandato do presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia.
"As investigações apontam a existência de um vínculo muito estreito entre o deputado Herminio Coelho e o alvo e preso Márcio César Silva Gomes", diz o relatório.
Gomes é apontado como um "importante membro" da organização criminosa. Ele está preso sob as acusações de associação para o tráfico, formação de quadrilha, peculato e estelionato.
Por meio de sua assessoria, Herminio Coelho negou as acusações. O parlamentar afirma que conheceu Mauro como empresário, e não sabia da ligação do colega com o crime organizado.
Além de Hermínio, a polícia identificou provas de que outros quatro deputados estaduais tinham ligação com a quadrilha: Ana da 8, Adriano Boiadeiro, Jean de Oliveira e Cláudio Carvalho. O modo de operação era semelhante: os traficantes ajudavam a financiar as campanhas e, em troca, podiam indicar funcionários-fantasmas para os gabinetes.
Vereadores – Cinco vereadores também foram alvo da operação. Três deles chegara a ser presos. No grupo está Jair Montes (PTC), que é apontado como um negociador da quadrilha. Ele comprava diretamente a droga, a serviço dos traficantes Beto Baba e Fernando da Gata. O ex-deputado federal Lindomar Garçon (PV), segundo colocado na eleição para a prefeitura de Porto Velho em 2012, também aparece na lista de investigados por ter recebido dinheiro dos traficantes.
O governador Confúcio Moura (PMDB) também está ameaçado pelas investigações: há indícios de que ele recebeu doações ilegais de campanha da quadrilha. Além disso, o governo fez uso de um luxuoso apartamento que, segundo a polícia, foi adquirido pelo traficante Beto Baba com dinheiro sujo. O imóvel foi utilizado pelo ex-ministro Mangabeira Unger quando ele assumiu o cargo de consultor do governo de Rondônia.
A Justiça de Rondônia enviou as provas para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), que decidirá se abre processo contra Confúcio Moura.
Histórico – Diante das gravíssimas denúncias, a Assembleia Legislativa se manteve praticamente inerte. Partiram de um cidadão comum os pedidos para abertura de processo de cassação contra os deputados estaduais citados no inquérito. A Casa, que não tem Conselho de Ética, formou uma Comissão Processante para analisar as acusações contra os parlamentares.
Até agora, entretanto, os trabalhos não começaram – o argumento é o de que o inquérito ainda não chegou à assembleia. E, com base no histórico recente, poucos acreditam que haverá cassação de mandatos.
Ofício assinado por Herminio, apreendido na casa de criminoso
Depois dos crimes cometidos, Cassol viria a ser governador, e eis o resultado: perdeu o mandato na Justiça Eleitoral por compra de votos.
O governador Confúcio Moura é irmão de um desses personagens: Nobel Moura, que foi cassado por corrupção. Nobel ganhou o noticiário pela primeira vez em 1992, quando agrediu com um soco a colega Raquel Cândido (PTB-RO) no plenário da Câmara. Dois anos depois, Raquel – posteriormente condenada à prisão por assassinato – também foi cassada por seu envolvimento no escândalo dos Anões do Orçamento.
Atualmente, todos os três senadores de Rondônia tem processos na Justiça. O mesmo vale para cinco dos oito deputados federais. A média – 73% da bancada – é bem superior ao já inadmissível índice do Congresso, em torno de 53%.
Há precedentes ainda mais graves: o senador Olavo Pires, que vencera o primeiro turno das eleições para o governo do estado em 1990, foi assassinado durante o processo eleitoral. Oswaldo Piana, que havia ficado em terceiro lugar no primeiro turno, sagrou-se vencedor. Dois presos durante as investigações apontaram Piana como mandante do crime. Depois recuaram. A Justiça nunca conseguiu comprovar quem era o responsável pelo assassinato.
A Assembleia Legislativa do estado também foi palco de outro escândalo de proporções ainda maiores que o atual. Em 2006, uma operação da Polícia Federal revelou o desvio de pelo menos 70 milhões de reais em contratos da Casa. Além de juízes e integrantes do Ministério Público, nada menos do que 23 dos 24 deputados estaduais tinham participação no esquema – ninguém foi cassado.
O único que escapou das denúncias foi Neri Firigolo (PT). Mas isso não é atestado de honestidade: o parlamentar já foi flagrado empregando uma funcionária-fantasma e utilizando recursos da Câmara para bancar viagens de parentes.
fonte:http://veja.abril.com.br/noticia/brasil


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